quarta-feira, 19 de agosto de 2009

ARTES MARCIAIS


Antes de passar ao entendimento do que são Bujinkan Budo Taijutsu e Ninjutsu, é necessária uma abordagem preliminar sobre as bases históricas que originaram tais formas de combate japonesas.

Embora tenha sofrido forte influência das culturas de seus vizinhos asiáticos, como Coréia e China, o Japão permaneceu “fechado” ao exterior até quase o final da Idade Média. Sua língua, crenças religiosas, gastronomia, padrões sociais e outras manifestações culturais, conservaram, por muito tempo, características únicas. Muito antes da influência estrangeira tornar-se significativa, o povo japonês já tinha sua cultura completamente sedimentada.

Um dos fatores que mais contribuíram para o “isolamento” dessa cultura é a tipografia acidentada do arquipélago japonês, cujo elevado número de ilhas acabou acentuando as peculiaridades regionais. Assim sendo, à semelhança dos demais traços culturais japoneses, as artes marciais daquele país desenvolveram-se, inicialmente, sem grande influência externa, à exceção daquela exercida pelos vizinhos asiáticos, já comentada.

A influência estrangeira passou a ser significativa em meados do século VI, quando uma quantidade expressiva de imigrantes, em particular oriundos da China e da Coréia, evadiram-se de seus países, por razões diversas, em direção ao arquipélago nipônico. Muitos desses fugitivos eram religiosos, oficiais militares, comerciantes, artesãos e outros, que acabaram encontrando refúgio em determinadas regiões do país, e gradativamente se misturando e influenciando a cultura e os costumes locais. Essa mistura da cultura “fechada” do Japão com as novas trazidas do estrangeiro tiveram algumas conseqüências curiosas sobre as artes marciais locais.

Acredita-se, por exemplo, que uma forma de luta oriunda da Índia, chamada Karani, foi levada para China, e de lá, seguindo o movimento migratório, exportada para o Japão com o nome de Tode, também conhecida como Karate (que não guarda qualquer relação com o Karate de Okinawa, conhecido atualmente). O Tode ou Karate, que era especializado em golpes e chutes nos pontos vitais do corpo, além de visar o deslocamento ou rompimento de ossos e articulações, deu origem a outra forma que ficou conhecida como Kosshijutsu (a arte de atacar os pontos vitais do corpo, órgãos, músculos e nervos).

Essas artes antigas foram se distinguindo, dando origem a diferentes formas que, posteriormente, ficaram conhecidas como Yawara, Aikijujutsu, Jujutsu, entre outras, que por sua vez deram origem às formas de Budô moderno atualmente conhecidas: Judô, Aikidô, Karatê, e etc. É importante ressaltar que os nomes de muitas formas de combate mudavam com o passar do tempo, e de acordo com a escola e seu sucessor. Um bom exemplo é o termo Jujutsu (arte suave ou flexível), que já foi chamado de Kenpô, Toritê, Hakuda, Gohô, Kogusoku, Koshi No Mawari, Yoroi Kumiuchi, e etc.

Nessa época, o treinamento marcial era muito difícil, não havendo método de ensino ou didática, sendo necessária muita sensibilidade e determinação por parte do aluno, que copiava os movimentos de seu mestre até tornar-se eficaz. Somente a partir do período Kamakura (1192-1333), quando os Samurais iniciaram sua ascensão, que as práticas de combate (Bujutsu e Bugei) começaram a tomar forma, recebendo classificações e documentos técnicos. Nessa época o treinamento quase sempre era restrito aos membros da elite guerreira, que dessa forma evitava a excessiva exposição de sua capacidade bélica a eventuais inimigos. As artes guerreiras alcançaram um alto nível durante as incessantes batalhas por poder e domínio em todo o Japão, principalmente na era de Sengoku Jidai (período de guerra civil), que estendeu-se de 1400 a 1603.

Durante o período Edo, o Shogun Ieyasu, da família Tokugawa, conseguiu o controle de todo o Japão, através de um governo forte e fechado aos estrangeiros, garantindo um longo período sem guerras. Essa paz permaneceu até a reabertura do país para os Gaijin (estrangeiros) no século XIX, e representou um período muito difícil para a sobrevivência dos guerreiros que se viram desempregados, sendo forçados a buscar outras atividades. Muitos Samurais tornaram-se Doshin (policiais), Yojinbo (guarda-costas), Ronin (guerreiro errante), Shukke (monge budista), Akindo (mercador), e outros. O status do Samurai, que anteriormente ocupava o topo da escala social, caiu a ponto de tornar-se negociável; ricos comerciantes podiam adquirir, com seu dinheiro, o status de Bushi (guerreiro), mediante a doação (Kenken) ao senhor do feudo, obtendo o direito de usar o Katana (espada) e o sobrenome familiar. Esse ato era conhecido como Myoji Taitô. Porém, mesmo após sofrerem todos esses infortúnios, os militares feudais conservaram seu espírito guerreiro. Assim, aqueles que não quiseram afastar-se do Budô tiveram que procurar outras maneiras de aperfeiçoar suas habilidades marciais. Foi a partir dessa época que surgiram muitos Dojô (academias), juntamente com o aparecimento de demonstrações públicas das artes guerreiras. Assim, a prática, que anteriormente era elitizada, foi aberta à massa, ocasionando a proliferação das Ryu (escolas) e a transmissão e organização dos Denshô (documentos de tradição), que gradativamente foram se sofisticando. O conceito Dô (caminho/via), encontrado hoje nas modalidades como Karatê-Dô, Judô, Aikidô, Kendô, Jodô, Iaidô e tantas outras, cresceram e se desenvolveram associados ao espírito de dever e ética que era típico dos Bushi. O conceito Jutsu (arte, ciência, habilidade), que representa o lado marcial do Bushi foi, assim, se perdendo. Dessa forma, seguir o conceito Dô, que significa “não matar”, era contrário à prática do Bujutsu. O Budô foi, então, gradativamente desenvolvendo um refinamento técnico e espiritual, deixando de limitar-se apenas à arte da guerra.

A prática de uma disciplina Dô, todavia, não é superior ou inferior à do Jutsu; são apenas de momentos diferentes. O objetivo do treinamento de uma arte marcial, não importando se antiga ou moderna, deve transformar o seguidor em um indivíduo íntegro, desenvolvendo seu caráter e espírito, mas sem esquecer a essência bélica de tais artes, que foram desenvolvidas para sobreviver em situações de perigo.

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